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Reportagem

Dossiê Banco Master

Bancário / Radar Jurídico

Caso Banco Master: por que R$ 12,2 bilhões em carteiras estão no coração da suspeita

Apuração verifica a existência dos empréstimos negociados e a atuação dos responsáveis. Volume das carteiras não equivale automaticamente ao prejuízo final.

Fachada de uma unidade do Banco de Brasília
Fachada de uma unidade do Banco de Brasília. Foto de arquivo usada como contexto; não registra necessariamente o fato específico narrado na matéria. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

As carteiras de cerca de R$ 12,2 bilhões negociadas com o BRB estão no centro da suspeita de que créditos sem lastro tenham sido apresentados como ativos reais no caso Master. A investigação procura conferir os empréstimos por trás desses papéis e o caminho percorrido pelo dinheiro.

Uma carteira reúne direitos de cobrança contra devedores. Para quem a compra, o valor depende de receber parcelas no futuro. A verificação envolve contratos, identificação dos tomadores, liberação original do empréstimo e histórico de pagamento — elementos que permitem testar se o crédito existia.

O BRB é controlado pelo Distrito Federal, o que amplia o interesse público sobre as operações. Ainda assim, o total negociado não deve ser tratado automaticamente como prejuízo definitivo. Recuperações, garantias e eventuais ativos substitutos precisam ser avaliados para dimensionar a perda.

No caso Master, a Polícia Federal investiga se carteiras vendidas ao BRB foram fabricadas sem lastro financeiro. O valor citado nas apurações chega a R$ 12,2 bilhões. A expressão “sem lastro” significa que o ativo declarado não encontrava correspondência suficiente em contratos e obrigações reais.

Como uma carteira deveria ser conferida

A diligência começa na existência do tomador, passa pelo contrato, desembolso, autorização de desconto, saldo devedor, taxa, prazo e comportamento de pagamento. Em crédito consignado, também é necessário conferir convênios, margens e repasses do órgão responsável.

Uma amostra estatística pode ajudar, mas operações bilionárias exigem controles que detectem duplicidade, contratos cancelados, dados incompatíveis e arquivos produzidos apenas para preencher uma base. O comprador precisa conseguir reconciliar o arquivo recebido com dinheiro efetivamente desembolsado e parcelas efetivamente cobradas.

Por que houve substituição

Segundo a investigação, após o Banco Central apontar problemas, as carteiras foram substituídas por outros ativos. A troca pode reduzir uma exposição problemática, mas só funciona se o substituto tiver valor verificável, liquidez e risco compatível.

Quando o ativo substituto é cota de fundo, título de empresa relacionada ou papel sem mercado ativo, a discussão muda de existência para avaliação. O crédito pode existir formalmente e ainda assim valer muito menos que o registrado.

O valor nominal de R$ 12,2 bilhões não é automaticamente o prejuízo final. É preciso descontar pagamentos, garantias, substituições válidas, recuperações e o valor realizável dos ativos recebidos. Por isso, estimativas de perda variaram ao longo de 2026.

A apuração precisa reconstituir cada lote, e não apenas o total. O caminho começa no contrato original com o tomador, passa pelo comprovante de liberação do dinheiro, registro das parcelas, eventual refinanciamento e cessões posteriores. Depois, é necessário comparar essa trilha com a amostra examinada pelo comprador, o preço pago e os alertas recebidos. Uma carteira pode existir e ainda valer menos do que o registrado por causa de inadimplência, documentação incompleta ou dificuldade de cobrança. Também pode haver crédito inexistente ou duplicado, hipótese mais grave que exige demonstração individualizada.

A substituição posterior dos créditos não apaga a operação anterior. Ela cria duas avaliações: por que o ativo original precisou ser trocado e se o substituto tinha valor econômico equivalente. Para responder, peritos terão de evitar comparações apenas pelo valor de face. Liquidez, prazo, risco, garantias e relação entre as partes alteram o preço real. O prejuízo do BRB só poderá ser medido depois dessa marcação, das cobranças e das recuperações. Até lá, R$ 12,2 bilhões é a dimensão da exposição investigada, não um veredito contábil definitivo.

A pergunta criminal é se houve intenção de enganar e quem participou. A pergunta patrimonial é quanto pode ser recuperado. A pergunta de governança é por que os controles de uma instituição pública não impediram compras dessa dimensão antes de o problema chegar ao regulador.

Documentos e fontes consultados

A apuração foi conferida nos documentos e canais abaixo. A data indicada é a data do documento ou da publicação da fonte.

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