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Reportagem

Dossiê Banco Master

Bancário / Radar Jurídico

O socorro que não aconteceu: a tentativa de venda do Master ao BRB em cinco atos

Compra de participação foi anunciada em março e rejeitada pelo BC em setembro de 2025. Carteiras já negociadas permaneceram no centro da exposição do BRB.

Edifício do Banco de Brasília
Edifício do Banco de Brasília. Foto de arquivo usada como contexto; não registra necessariamente o fato específico narrado na matéria. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O acordo para o BRB comprar parte do Master foi anunciado em março de 2025 como uma saída empresarial. Seis meses depois, o Banco Central rejeitou a operação. A liquidação, em novembro, encerrou a tentativa de manter o conglomerado em funcionamento por essa via.

A compra de participação societária e a aquisição de carteiras de crédito eram negócios diferentes. A primeira dependia de aprovação e não se concretizou; as carteiras já negociadas continuaram relevantes para a exposição do BRB e para a investigação. Separar essas duas frentes evita atribuir ao veto do BC efeitos que ele não teve.

O anúncio, porém, era apenas o início. Operações societárias entre bancos dependem da autorização do Banco Central, que avalia capital, governança, origem de recursos, viabilidade e efeitos prudenciais. Como havia uma instituição pública de um lado, o negócio também se tornou questão política. A Câmara Legislativa do Distrito Federal discutiu e autorizou a transação em meio a críticas sobre o risco de transferir problemas privados para o patrimônio do BRB.

A controvérsia cresceu porque a relação entre os dois bancos era anterior ao contrato de compra. Ao longo de 2024 e 2025, o BRB adquiriu carteiras de crédito originadas no ecossistema do Master. O montante de aproximadamente R$ 12,2 bilhões passou a ser tratado pela investigação como núcleo das suspeitas sobre lastro. Isso significa que, mesmo que a aquisição societária nunca fosse aprovada, uma exposição financeira de grande porte já havia sido criada.

Das carteiras à rejeição do negócio

Carteiras de crédito são conjuntos de obrigações de consumidores ou empresas. Na compra, o adquirente deve verificar contratos, identidade dos devedores, saldos, pagamentos, garantias, inadimplência e cadeia de cessões. Também precisa testar amostras e confirmar se o ativo não foi vendido mais de uma vez. A investigação busca saber se parte dos créditos apresentados ao BRB existia nas condições declaradas e quem participou da validação.

Quando o Banco Central questionou a origem e a qualidade dos ativos, parte das carteiras foi substituída. A troca poderia, em tese, reduzir um risco, mas abriu outra série de perguntas: qual era o valor dos papéis entregues, havia mercado para vendê-los, existiam relações entre emissores e o grupo, e a substituição repunha efetivamente a capacidade de pagamento? A análise econômica não termina com a mudança do nome do ativo.

O BRB informou ter recorrido a assessores jurídicos, financeiros e contábeis. Contratar especialistas é uma etapa esperada, mas não transfere automaticamente a responsabilidade de administradores e conselheiros. Uma investigação de governança precisa reconstruir os documentos que chegaram a cada instância, as ressalvas registradas, os votos, os limites aprovados e a reação a alertas posteriores.

A operação em cinco atos

2024 e 2025O BRB amplia compras de carteiras ligadas ao Master, antes de anunciar a aquisição societária.
28 mar. 2025Os bancos comunicam contrato para o BRB adquirir o controle econômico do Master.
Meses seguintesDiligências, debate político e análise prudencial avançam, enquanto surgem dúvidas sobre ativos.
3 set. 2025O Banco Central rejeita a operação e encerra a saída apresentada ao mercado.
18 nov. 2025O Master é liquidado e a PF deflagra a primeira fase da Compliance Zero.

Em 3 de setembro de 2025, depois de mais de cinco meses de exame, o Banco Central rejeitou a aquisição. A íntegra da avaliação prudencial não foi divulgada ao público, em razão dos limites de sigilo aplicáveis. A negativa não provou, por si só, fraude nas operações anteriores. Ela retirou a solução empresarial que vinha sendo defendida e aumentou a urgência de encontrar capital e liquidez.

O negócio acabou, a exposição permaneceu

Após a rejeição, foram mencionadas alternativas de reorganização e a possível entrada de investidores estrangeiros. Nenhuma delas se converteu em solução capaz de impedir a medida do regulador. Dez semanas depois, o Banco Central decretou a liquidação do conglomerado. No mesmo dia, a Operação Compliance Zero levou a discussão sobre as carteiras para a esfera criminal.

O BRB passou a enfrentar provisões, revisão de balanços, bloqueios judiciais e pressão por capital. O valor efetivo da perda ainda depende da recuperação dos créditos, dos ativos recebidos em substituição, de garantias e de decisões judiciais. Tratar os R$ 12,2 bilhões como prejuízo definitivo seria tão impreciso quanto ignorar o tamanho da exposição. O número é o ponto de partida da apuração, não a conta final.

A responsabilidade também não pode ser atribuída em bloco. Diretoria, conselho de administração, comitês, áreas técnicas, auditores e consultores tinham funções diferentes. Para individualizar condutas, será necessário demonstrar que informação cada pessoa recebeu, qual decisão tomou, se havia competência para impedir a operação e se agiu com erro, negligência ou intenção. O fato de uma compra ter sido aprovada coletivamente não apaga deveres individuais, mas também não transforma todos em autores da mesma conduta.

O episódio deixa uma questão maior sobre bancos públicos. Essas instituições podem competir e fazer aquisições, mas trabalham com capital ligado ao poder público e estão expostas a influência política. Por isso, decisões de alto risco exigem documentação reforçada, transparência compatível com o sigilo bancário e mecanismos capazes de registrar divergências. A tentativa de compra do Master fracassou. O que ainda precisa ser explicado é por que bilhões em ativos circularam antes que a solução societária fosse submetida ao teste definitivo do regulador.

Documentos e fontes consultados

A apuração foi conferida nos documentos e canais abaixo. A data indicada é a data do documento ou da publicação da fonte.

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