Revisar um contrato com inteligência artificial envolve uma pergunta anterior à qualidade do texto: qual posição o cliente está disposto a aceitar? O caso ContractMatrix, plataforma desenvolvida em colaboração com Harvey e Microsoft, ilustra uma aplicação de IA que procura aproximar a análise de documentos dos parâmetros de negociação de uma organização, mantendo o advogado na revisão do resultado.
A trajetória é documentada em comunicados do próprio escritório. Em dezembro de 2023, a então Allen & Overy anunciou a ferramenta de redação e negociação contratual, com referências jurídicas selecionadas para apoiar as respostas. Em julho de 2025, a A&O Shearman apresentou o módulo Analyze, voltado à revisão segundo orientações previamente definidas para cada cliente. São marcos históricos do produto, não lançamentos de setembro de 2026.
Na apresentação do Analyze, o escritório descreve a utilização de inteligência artificial generativa para alinhar documentos a parâmetros e posições comerciais. O anúncio também afirma que um advogado permanece responsável pela conferência da saída. Essas informações mostram o uso pretendido e o desenho relatado pela organização; não constituem uma avaliação independente de desempenho realizada pelo Jornal da Justiça.
O interesse do caso está menos na possibilidade de obter uma nova redação em poucos instantes e mais na referência usada para produzi-la. Um contrato não é avaliado apenas pela correção gramatical. Uma disposição pode ser clara, coerente e ainda assim contrariar uma condição que o cliente considera essencial. Traduzir essa condição para um processo de revisão é trabalho jurídico e organizacional.
O parâmetro precisa existir antes da comparação
Um conjunto de orientações de negociação, frequentemente chamado de playbook, pode organizar posições preferenciais, alternativas aceitáveis e situações que precisam de aprovação específica. Na prática, ele procura tornar explícito o que uma equipe experiente considera ao examinar cláusulas. Isso não significa que todos os assuntos possam ser convertidos em respostas fechadas ou que a orientação dispense interpretação.
Considere um exemplo hipotético, sem relação com clientes da plataforma: uma empresa aceita determinado prazo de pagamento em contratos de pequeno valor, mas exige outra condição quando há fornecimento contínuo ou exposição financeira maior. A revisão não pode conferir apenas a presença de um número. Precisa identificar o contexto que torna aquela condição adequada ou exige uma decisão diferente.
Outro exemplo está nas exceções. Uma regra interna pode admitir uma alternativa após aprovação de uma área responsável. Se a ferramenta sugerir a alternativa sem indicar essa dependência, o texto poderá parecer pronto quando ainda existe uma decisão pendente. O processo de revisão deve preservar a diferença entre uma redação possível e uma condição efetivamente autorizada para a negociação.
Esse raciocínio não descreve uma falha verificada no ContractMatrix. Ele mostra uma pergunta aplicável à avaliação de ferramentas dessa categoria: como o sistema recebe, interpreta e apresenta os critérios que orientam o trabalho? Conhecer a resposta requer examinar a configuração e testar o uso pretendido. A demonstração de um contrato simples não resolve todas as situações de uma carteira.
Referências anteriores também precisam de contexto. Uma cláusula aceita em outro negócio pode ter resultado de uma concessão excepcional, de uma legislação diferente ou de condições comerciais que não se repetem. Reutilizá-la como padrão sem examinar essas diferenças pode disseminar uma escolha que deveria permanecer restrita. Organizar o repertório é mais do que reunir documentos que já foram assinados.
No anúncio original de 2023, a organização apresentava o apoio em acervos jurídicos selecionados como parte do desenho da solução. O comunicado descrevia funcionamento em aplicação web ou complemento do Word e infraestrutura Microsoft Azure. Esses elementos pertencem à descrição daquele momento; não autorizam presumir que todas as versões, contratos comerciais e configurações atuais mantenham exatamente as mesmas condições.
Para um escritório brasileiro, o aprendizado transferível é formular o problema com precisão antes de escolher a ferramenta. Quais documentos serão revisados? Que referências são válidas? Quem pode alterar as posições do cliente? Um caso internacional pode ajudar a organizar essas perguntas, mas não comprova adequação automática a outra jurisdição, idioma, área de atuação ou obrigação profissional.
A sugestão precisa ser conferida no contrato inteiro
A revisão de uma cláusula isolada pode perder relações importantes. Definições, anexos e remissões internas alteram o alcance de uma disposição. Se uma sugestão modifica um termo, o advogado precisa verificar as passagens que dependem dele. A coerência do conjunto não decorre automaticamente da qualidade de cada parágrafo considerado separadamente.
Também é necessário distinguir alteração material de mudança de forma. Uma redação mais curta pode eliminar uma condição; uma formulação aparentemente mais técnica pode ampliar uma responsabilidade. A conferência útil identifica o que mudou e por que isso importa para o negócio. Aceitar alterações em bloco apenas porque o texto se tornou mais fluente reduz a visibilidade dessas escolhas.
A organização da negociação acrescenta outra dimensão. O documento analisado precisa ser a versão correta, e a resposta enviada deve corresponder ao que foi aprovado. Quando circulam cópias por diferentes canais, uma boa análise aplicada ao arquivo errado não resolve a demanda. Identificação de versão, responsáveis e estado da revisão continua relevante, com ou sem inteligência artificial.
Os relatos comerciais de ganho devem ser lidos com a mesma atenção. Um indicador divulgado pelo desenvolvedor pode servir como ponto de partida para perguntas sobre amostra, critérios e condições do teste. Sem esses elementos, não é adequado transformá-lo em promessa para outro escritório. Esta reportagem não reproduz percentuais de acerto nem estima economia para clientes brasileiros a partir dos anúncios consultados.
Uma avaliação própria pode examinar se a ferramenta reconhece divergências relevantes, preserva exceções e permite verificar a origem da sugestão. Também pode observar o que o revisor precisou corrigir e se o resultado chegou ao padrão exigido. Isso é diferente de medir apenas quantos documentos foram processados ou quanto tempo levou para aparecer a primeira resposta.
O uso de arquivos reais exige outra análise, relativa ao tratamento das informações. Contratos podem conter dados pessoais, estratégia comercial e conteúdo protegido. A referência a uma infraestrutura conhecida não substitui a conferência das condições do serviço contratado, dos acessos concedidos e do uso autorizado. O desenho de uma solução divulgada por uma grande banca não é uma autorização para enviar o acervo de qualquer cliente.
A manutenção das orientações internas também precisa de responsável. Se a posição comercial muda e o material de referência permanece antigo, a automação pode repetir com consistência um critério superado. Definir quem aprova a atualização e quais documentos ela alcança ajuda a evitar que a padronização se transforme em reprodução de uma regra que já não atende ao negócio.
Há ainda espaço para decisões que não cabem no padrão. Uma negociação pode envolver alternativas legítimas, riscos assumidos conscientemente e objetivos que exigem conversa com o cliente. Uma ferramenta de apoio pode organizar informação para essa decisão, mas não deve ser confundida com a própria escolha. O valor do trabalho jurídico não se limita a encontrar uma redação que pareça usual.
O ContractMatrix documenta, assim, uma direção concreta de uso da IA: aproximar a revisão contratual de referências e posições previamente trabalhadas. O caso não elimina a necessidade de julgamento profissional nem prova resultado universal. Para quem avalia automação, ele reforça que a qualidade da resposta começa na qualidade dos critérios e termina na conferência do contrato que será efetivamente negociado.
Documentos e fontes consultados
A apuração foi conferida nos documentos e canais abaixo. A data indicada é a data do documento ou da publicação da fonte.
- A&O launches SaaS partnership with Microsoft and Harvey — 21/12/2023A&O Shearman / arquivo Allen & Overy · Fonte primária
- Analyze is the new ContractMatrix module — 17/07/2025A&O Shearman · Fonte primária
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